O advogado e professor Leonardo Sampaio, sócio fundador da Sampaio Advocacia, ministrou na sexta-feira, 6 de novembro, a palestra magna de encerramento da I Jornada Prática da Jovem Advocacia de Porto Seguro, na sede da Subseção da OAB no município.

Com o tema "Inteligência Artificial na Prática da Advocacia", foram mais de duas horas de aprofundamento sobre o uso da IA no exercício da profissão. A palestra fechou um dia de programação que passou pelos Juizados Especiais, pelas ações de alimentos, pelo Direito Civil e a precificação de honorários, pelo Direito Previdenciário, pelo marketing jurídico e pelo Tribunal do Júri.

O encontro teve um significado particular. Em junho de 2019, Leonardo Sampaio havia falado sobre automação na advocacia na mesma sede. Sete anos depois, o assunto voltou à sala, agora com a ferramenta presente na rotina de boa parte dos escritórios.

Leonardo Sampaio fala à plateia na sede da OAB Subseção Porto Seguro durante a palestra sobre inteligência artificial

Três coisas diferentes com o mesmo nome

A palestra começou separando o que costuma ser tratado como uma coisa só. A IA preditiva classifica e prevê a partir de padrões, e está há anos no filtro de spam e no alerta de fraude do banco. A IA generativa escreve texto novo prevendo a próxima palavra: lê, resume e redige muito bem, mas não deve ser usada para contar prazo, somar valores ou conferir datas, e quando erra, erra com a mesma segurança de quando acerta. Já a automação, que executa uma tarefa sempre que encontra determinado resultado, nem é inteligência artificial, e resolve boa parte do que os escritórios querem automatizar.

Sigilo profissional antes da ferramenta

O ponto central foi o cuidado com os dados dos clientes. Ao colar um processo inteiro em um chat de IA, o advogado envia informações do cliente para servidores de terceiros, sob contratos que nem sempre leu. A proposta apresentada foi o caminho inverso: trazer a ferramenta para dentro do escritório, com modelos próprios, projetos organizados, um código de ética que a ferramenta consulta antes de cada resposta e procedimentos operacionais padrão escritos.

Um exemplo ilustrou por que o procedimento escrito importa. Uma alteração em decreto do Tribunal de Justiça da Bahia mudou o dia da suspensão do expediente no fim de outubro, e um calendário desatualizado deslocaria a contagem de um prazo. Nenhuma IA percebe esse tipo de mudança sozinha. Uma regra simples, como conferir a fonte antes de confiar no calendário, percebe.

Descrever problemas, não programar

Na parte final, a palestra mostrou que construir ferramentas próprias deixou de depender de formação em programação. A IA pode ser usada para conversar, para trabalhar junto com os arquivos do escritório ou para escrever programas que rodam sozinhos depois. Em qualquer dos casos, a habilidade decisiva é descrever bem o problema, algo que o advogado já pratica todos os dias.

Leonardo Sampaio diante do slide em que afirma nunca ter feito curso de programação

Sobre a escolha da ferramenta, a mensagem foi direta: ChatGPT, Claude, Gemini e outras plataformas servem ao propósito, e o resultado depende mais de quanto o advogado entende a linguagem do que do sistema escolhido. O encerramento deixou um desafio para a semana seguinte: escolher uma tarefa repetitiva do escritório e descrevê-la em português, em dez linhas, como se fosse explicada a um estagiário no primeiro dia.

A plateia participou ao longo da apresentação respondendo, pelo celular, perguntas exibidas no telão, sobre o que criaria para o próprio escritório e onde encontra mais dificuldade.

Sobre o palestrante

Leonardo Sampaio é advogado, pós-graduado em Direito Administrativo e Constitucional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e sócio fundador da Sampaio Advocacia. É professor universitário e autor de artigos jurídicos publicados em veículos especializados, como Migalhas, Jusbrasil e Conjur. A forma como o escritório aplica a tecnologia está descrita na página Tecnologia aplicada à advocacia.